Poucas dúvidas chegam ao consultório com tanta frequência quanto esta: "Doutor, é verdade que Ozempic faz mal para os rins?" A pergunta faz sentido — o uso de medicamentos à base de semaglutida (princípio ativo presente em produtos como Ozempic e Wegovy) cresceu rapidamente no Brasil, tanto para controle do diabetes tipo 2 quanto, mais recentemente, para perda de peso.

Resposta direta: a ciência mais recente aponta o oposto do que muita gente imagina. No maior estudo já feito sobre o tema, pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica que usaram semaglutida tiveram 24% menos risco de piora significativa da função renal — ou seja, o medicamento protegeu os rins, não prejudicou. Isso não significa, porém, que ele seja isento de riscos ou indicado para qualquer pessoa: quem tem doença renal crônica deve sempre discutir essa decisão com seu nefrologista.

Ilustração de uma balança equilibrando um rim de um lado e um ponto de interrogação do outro, representando mito e verdade sobre Ozempic e os rins
Ozempic e os rins: separando o que a ciência já provou do que ainda é mito.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Resumo rápido

  • Não há evidência de dano renal direto pela semaglutida — pelo contrário, no estudo FLOW ela reduziu o risco de desfechos renais graves.
  • Redução de 24% no risco de piora significativa da função renal, necessidade de diálise/transplante ou morte por causa renal/cardiovascular.
  • Redução de 18% em eventos cardiovasculares maiores e 20% na mortalidade por qualquer causa, no mesmo estudo.
  • O risco real associado ao medicamento é indireto: náuseas, vômitos e diarreia mal controlados podem causar desidratação, e a desidratação, sim, pode lesar os rins — de forma geralmente reversível.
  • Esses benefícios renais foram demonstrados em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, sob acompanhamento médico — não é evidência de que qualquer pessoa deva usar o medicamento "para proteger os rins".

O Que é a Semaglutida?

Semaglutida é um medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 (uma incretina, hormônio produzido naturalmente pelo intestino). Ela age imitando esse hormônio, o que:

Esses mecanismos foram inicialmente estudados para controle do diabetes tipo 2, mas nos últimos anos passaram a ser investigados também quanto a efeitos em outros órgãos — incluindo coração e rins.

Infográfico mostrando os órgãos onde os efeitos do GLP-1 foram estudados: pâncreas, coração, rins e peso corporal
Os efeitos do GLP-1 vêm sendo estudados em vários órgãos além do pâncreas — inclusive coração e rins.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

O Que o Estudo FLOW Mostrou Sobre Semaglutida e os Rins

O principal estudo científico sobre esse tema é o FLOW, publicado no New England Journal of Medicine em 2024 — o primeiro grande ensaio clínico dedicado especificamente a avaliar desfechos renais de um agonista de GLP-1. Os números:

Infográfico com os principais resultados do estudo FLOW: 24% menos risco de desfecho renal, 18% menos eventos cardiovasculares, 20% menos mortalidade geral
Principais resultados do estudo FLOW (2024): redução de risco renal, cardiovascular e de mortalidade geral com semaglutida, em comparação a placebo, em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.

Importante: esses resultados foram observados em uma população específica — pessoas com diabetes tipo 2 associado a doença renal crônica, sob acompanhamento médico rigoroso. Não é uma evidência de que qualquer pessoa deva usar o medicamento "para proteger os rins".

Então, Por Que Existe o Mito de Que Faz Mal aos Rins?

O mito não surgiu do nada. Existe um mecanismo real por trás dessa preocupação:

Efeitos colaterais digestivos podem causar desidratação

Náuseas, vômitos e diarreia estão entre os efeitos colaterais mais comuns da semaglutida, especialmente no início do tratamento ou em aumentos rápidos de dose. Quando intensos e não manejados, esses sintomas podem levar à desidratação — e a desidratação, sim, pode causar uma lesão renal aguda, geralmente reversível com hidratação adequada e ajuste da dose.

Ou seja: o problema não é a semaglutida lesando o rim diretamente, mas um efeito colateral digestivo mal controlado que reduz o volume de líquido no corpo. É uma diferença clinicamente importante.

Quem precisa de cautela redobrada

Aplicação de injeção subcutânea de medicamento no abdômen
Efeitos colaterais digestivos mal controlados — não o medicamento em si — são a principal causa de risco renal indireto.

O Que Ainda Não Sabemos

A ciência avança, mas ainda há lacunas importantes:

Conclusão: Nem Vilão, Nem Solução Universal

A semaglutida não "faz mal aos rins" — pelo contrário, em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, os dados mais recentes mostram benefício renal e cardiovascular relevante. Mas isso está longe de significar que o medicamento seja indicado, seguro ou necessário para todo mundo.

O que fazer com essa informação:

  1. Se você usa ou considera usar semaglutida, faça isso sempre sob prescrição e acompanhamento médico
  2. Relate imediatamente ao seu médico sintomas de náusea, vômito ou diarreia intensos
  3. Mantenha-se hidratado durante o tratamento
  4. Se você tem doença renal, converse com seu nefrologista sobre riscos e benefícios específicos para o seu caso

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. A semaglutida é um medicamento de venda sob prescrição — não inicie, altere ou interrompa o uso sem orientação do seu médico.

Fontes usadas na checagem médica deste conteúdo: Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al. Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes. New England Journal of Medicine, 2024. DOI. American Diabetes Association — comunicado oficial sobre o estudo FLOW. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Ozempic (semaglutida): nova indicação.

Saiba mais sobre diagnóstico e tratamento da doença renal crônica