Este texto é dirigido a estudantes de medicina, residentes e colegas de outras especialidades. Reúne evidência publicada entre 2024 e 2026 sobre a febre do Nilo Ocidental (FNO), com atenção especial ao cenário epidemiológico brasileiro e às evidências — ainda escassas — de acometimento renal.
Foto: Hyamli Kashyap / Pexels
1. Introdução e etiologia
A FNO é uma arbovirose causada por um flavivírus, do mesmo gênero que dengue, Zika e febre amarela. Trata-se de uma zoonose cujo principal reservatório são aves silvestres e migratórias, com transmissão predominante pela picada de mosquitos do gênero Culex (o pernilongo comum, ou muriçoca), que adquirem o vírus ao se alimentarem do sangue de aves infectadas. O ciclo de transmissão é, portanto, enzoótico (ave-mosquito-ave), com o ser humano e os equídeos figurando como hospedeiros acidentais e terminais.
2. Epidemiologia no Brasil
O primeiro registro de circulação do vírus no país ocorreu na década de 2010, com os primeiros casos humanos confirmados no Piauí. Desde então, 13 estados já registraram evidência de circulação viral (humana, animal ou vetorial). Segundo revisão publicada em 2026, o Brasil acumula mais de 100 casos humanos notificados desde 2014 — o maior número entre os países latino-americanos.
2.1 Atualização 2026
- Santa Catarina: 2 casos confirmados, ambos com manifestações neurológicas — um óbito (mulher, 77 anos, Imbituba) e um caso com alta hospitalar (56 anos, Caçador).
- São Paulo: primeiros casos humanos confirmados na história do estado — mulher de 34 anos em Ribeirão Preto (com histórico de viagem à Amazônia, já curada) e adolescente de 18 anos em São José do Rio Preto (internada).
- Piauí: 1 caso provável em investigação.
- Mato Grosso: caso confirmado em lactente em Campo Novo do Parecis (sintomas em dez/2025, confirmação laboratorial em líquor). A investigação ativa de 112 residentes identificou 29 sintomáticos (25,9%), sendo 8 com manifestações neurológicas — sugerindo circulação viral mais ampla do que a notificação captura.
2.2 O paradoxo da subnotificação
Revisão de 2026 sobre a FNO na América Latina descreve um paradoxo consistente: a circulação viral está bem documentada em aves, cavalos e mosquitos em toda a região, mas os casos humanos confirmados são desproporcionalmente escassos frente à América do Norte e Europa. As causas apontadas incluem limitações estruturais dos sistemas de vigilância e capacidade diagnóstica restrita. O fator clinicamente mais relevante, porém, é a classificação equivocada de síndromes febris leves como dengue, Zika ou chikungunya, já que a apresentação clínica se sobrepõe e esses vírus circulam simultaneamente nas mesmas regiões.
Estudo de sorovigilância na Bahia (2026) mostra bem essa dificuldade diagnóstica: a especificidade do teste sorológico (NS1) para FNO caiu para 73,4% devido à reatividade cruzada em pacientes com infecções prévias por outros flavivírus (dengue, Zika). Isso indica que a sorologia isolada em áreas de alta endemicidade de arboviroses deve ser interpretada com cautela e, idealmente, confirmada por RT-PCR.
3. Quadro clínico
Cerca de 20% dos infectados desenvolvem manifestações clínicas, geralmente leves: febre de início abrupto, cefaleia, mialgia, náuseas, vômitos e exantema. Menos de 1% evolui para a forma neuroinvasiva (encefalite, meningite ou paralisia flácida), com letalidade em torno de 10% nesses casos graves.
Relato de caso de Minas Gerais documenta uma evolução neuroinvasiva grave: paciente do sexo feminino, 78 anos, com quadro iniciado por diplegia facial, disfagia e tetraparestesia progressiva, que evoluiu para tetraplegia e insuficiência respiratória — reforçando a importância do diagnóstico diferencial em quadros neurológicos agudos, especialmente após exposição ambiental a aves mortas.
3.1 Mecanismo de neuroinvasão
Revisão de 2026 sobre a barreira sangue-líquor (plexo coroide) no contexto de encefalites arbovirais aponta que, para o vírus do Nilo Ocidental (assim como para os vírus da encefalite japonesa e da encefalite transmitida por carrapatos), a evidência de envolvimento direto do plexo coroide como porta de entrada no SNC ainda é indireta. No Zika, por comparação, há evidência experimental mais robusta desse mecanismo. A neuroinvasão em si é bem estabelecida clinicamente, mas o mecanismo preciso permanece em investigação.
4. Diagnóstico diferencial e laboratorial
O diagnóstico laboratorial é essencial para diferenciar a FNO de outras arboviroses endêmicas no Brasil (dengue, Zika, chikungunya, febre amarela), dado o quadro clínico inicial frequentemente indistinguível. As ferramentas disponíveis incluem:
- Sorologia (ELISA IgM/IgG): sujeita a reatividade cruzada entre flavivírus, especialmente em pacientes com infecção prévia por dengue ou Zika.
- RT-PCR: padrão mais específico, particularmente em amostras de líquor na suspeita de forma neuroinvasiva.
- Novas plataformas em desenvolvimento: imunoensaios multiplex por microesferas (MIA) vêm sendo testados para sorovigilância populacional em larga escala, com sensibilidade alta (94-100%) mas especificidade variável conforme o histórico de exposição a outros flavivírus.
5. Vigilância e abordagem One Health
Estudo conduzido na região amazônica (2023-2024) investigou arbovírus neurotrópicos em tecido nervoso de animais domésticos e silvestres. Os achados apoiam a importância da vigilância veterinária e ambiental como sistema de alerta precoce para circulação viral, antes mesmo da detecção de casos humanos.
A revisão de 2026 sobre a região destaca que o fortalecimento da preparação na América Latina requer investimento em infraestrutura diagnóstica, implementação de inquéritos sorepidemiológicos padronizados, modelos preditivos adaptados ao contexto ecológico local e colaboração intersetorial robusta, alinhados ao arcabouço One Health (saúde humana, animal e ambiental integradas).
Nesse contexto, também merece nota a segurança transfusional. Levantamento internacional publicado em 2026, com participação de centro brasileiro, identificou a FNO como o único arbovírus rotineiramente rastreado em doações de sangue entre os países respondentes, com 256 doações positivas confirmadas globalmente em 2024 e nenhum caso de transmissão transfusional reportado. A vigilância transfusional também é parte da rede de contenção da doença.
6. Lesão renal aguda e febre do Nilo Ocidental
A literatura sobre acometimento renal na FNO é escassa se comparada à dedicada às manifestações neurológicas, mas há evidência consistente de que o vírus é nefrotrópico e de que a lesão renal aguda (LRA) integra o espectro clínico da doença, sobretudo em pacientes imunossuprimidos e naqueles com encefalite associada.
6.1 Evidência de nefrotropismo
Revisão de referência sobre flavivírus e doenças renais, de autoria brasileira, descreve que alguns flavivírus, incluindo o vírus da FNO, já foram consistentemente identificados em tecido renal e em urina, com associação clínica documentada tanto a síndromes renais agudas quanto crônicas. O mesmo padrão é descrito para dengue, febre amarela e Zika, o que aponta para um mecanismo fisiopatológico possivelmente compartilhado entre os flavivírus, envolvendo lesão tubular direta, resposta inflamatória sistêmica e comprometimento hemodinâmico em quadros graves.
6.2 Estudo prospectivo dedicado
O único estudo prospectivo dedicado especificamente à relação entre FNO e doença renal foi conduzido na Turquia, avaliando 45 pacientes com LRA e 77 com doença renal crônica (DRC). RNA viral foi detectado em 5,7% dos indivíduos e imunoglobulinas específicas em 4,1%. Entre os pacientes com LRA e RNA viral detectável em sangue e urina, todos apresentavam doenças de base que exigiam terapia imunossupressora, com cargas virais moderadas a altas. Esse achado sustenta a hipótese de que a imunossupressão é fator de risco relevante para acometimento renal mais evidente na infecção por FNO. Não houve evidência de transmissão viral via hemodiálise nos casos de DRC avaliados.
6.3 Relato de caso — LRA associada a encefalite
Relato de caso descreve insuficiência renal aguda em paciente com encefalite confirmada por FNO. O caso mostra que a LRA pode ocorrer como complicação sistêmica de quadros neuroinvasivos graves, possivelmente ligada a mecanismos multifatoriais (rabdomiólise, hipoperfusão renal, resposta inflamatória sistêmica) mais do que à lesão viral direta isolada nesse contexto.
6.4 Contexto de transplante renal e imunossupressão
Revisão sobre arbovírus em transplante de órgão sólido situa a FNO entre os arbovírus com curso mais grave e maior mortalidade em receptores de transplante comparados à população geral. A LRA está entre as complicações relatadas, ainda que mais consistentemente associada a dengue e chikungunya nessa população específica. Não foi estabelecida relação causal clara entre infecção por FNO e rejeição celular aguda do enxerto.
6.5 Lacuna de evidência: não foi identificada, na literatura indexada no PubMed, série de casos brasileira dedicada especificamente à relação entre FNO e lesão renal aguda. Diante do nefrotropismo já demonstrado para outros flavivírus endêmicos no país (dengue, Zika, febre amarela) e do crescente número de casos humanos confirmados de FNO no Brasil desde 2024, a investigação sistemática de marcadores de função renal em pacientes com FNO confirmada representa uma lacuna de pesquisa relevante.
7. Síntese clínica
O padrão que emerge da literatura recente é consistente: a FNO provavelmente circula e causa doença no Brasil em magnitude maior do que a notificação oficial capta, em razão da sobreposição clínica com outras arboviroses e das limitações diagnósticas sorológicas. Os casos confirmados em 2026 em SP, SC, PI e MT, incluindo o caso local em Ribeirão Preto, podem indicar expansão geográfica ou, mais provavelmente, aumento da capacidade de detecção.
Recomenda-se incluir a FNO no diagnóstico diferencial de síndromes febris agudas e, especialmente, de quadros neurológicos agudos (meningite, encefalite, paralisia flácida) em pacientes de áreas com circulação confirmada ou histórico de exposição a aves/vetores. Do ponto de vista nefrológico, pacientes imunossuprimidos ou com encefalite associada merecem monitorização de função renal, dado o nefrotropismo já descrito para o vírus, ainda que a evidência direta de LRA como complicação permaneça limitada.
Este texto tem finalidade educacional e não substitui a leitura da literatura primária citada nem a avaliação clínica individualizada de cada caso.
Referências
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Fontes jornalísticas complementares (não indexadas no PubMed): Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), Secretaria de Saúde de Santa Catarina e Ministério da Saúde, consultadas em 24-25/08/2026.
Versão para pacientes: Febre do Nilo Ocidental — o que você precisa saber